O mito promete que, se você tocar na escultura mortuária do túmulo deste jornalista francês, especialmente na parte que representa o órgão genital, você terá fertilidade. É este pequeno detalhe — ou, para ser mais exato, grande detalhe — que torna a sepultura de Victor Noir, assassinado em 1870, uma das mais visitadas no Cemitério Père Lachaise, em Paris. E é preciso ser uma lenda bem grande para rivalizar com nomes como Jim Morrison, Oscar Wilde, Édith Piaf, Frédéric Chopin, Allan Kardec, Molière, La Fontaine e Honoré de Balzac, outros famosos que repousam naquela porção de terra.
Esta é a última morada de Victor Noir. Mas quem foi esse homem e por que sua efígie fúnebre se tornou um símbolo de desejo, fertilidade e mistério no coração da França? Como define o mitólogo José Carlos Leal: “O mito é capaz de fazer com que algo que parece inexpressivo pra gente ganhe um poder muito especial.”
O estopim político: um barril de pólvora em 1870
Para entender o mito, precisamos voltar a janeiro de 1870. A França era um barril de pólvora político, social e econômico prestes a explodir. O Imperador Napoleão III, sobrinho de Napoleão I, estava com os dias contados.
Republicanos e bonapartistas travavam debates ferozes, especialmente pela imprensa.
Victor Noir era o pseudônimo de Yvan Salmon, um jovem jornalista de apenas 21 anos. Ele escrevia no La Marseillaise, um jornal fortemente contrário ao Império.
A temperatura subiu drasticamente após a publicação de um artigo que insultava a memória de Napoleão I, falecido em 1823 enquanto estava aprisionado na Ilha de Santa Helena, no Atlântico. Com um histórico conhecido de confusões, o Príncipe Pierre Bonaparte, primo de Napoleão III, resolveu responder à altura e escreveu um artigo cheio de ofensas em uma publicação rival.
Sentindo a honra atingida, o editor do La Marseillaise, Paschal Grousset, enviou dois de seus jornalistas, Victor Noir e Ulric de Fonvielle, como testemunhas para exigir uma retratação ou a marcação de um duelo. Ocorre que o explosivo dono do jornal, Henri Rochefort, também havia enviado outras duas testemunhas com o mesmo objetivo.
O crime na Rue d'Auteuil
Victor Noir e Ulric de Fonvielle chegaram primeiro. Eles foram recebidos por Pierre Bonaparte em sua residência no número 59 da rue d'Auteuil, em Neuilly-sur-Seine, uma comuna nos arredores da capital francesa (um prédio antigo que hoje já não existe mais).
No entanto, o Príncipe nutria um ódio feroz pelo dono do jornal e preferia enfrentá-lo em um duelo, até por considerá-lo mais importante socialmente. Por isso, em um ato de desprezo, ele amassou e rasgou a carta com os termos do duelo proposto por Grousset, que acabara de ser entregue por Noir e Fonvielle.
O desdém do príncipe deu início a uma discussão rápida. Subitamente, Pierre sacou um revólver e atirou no peito de Noir; em seguida, disparou contra Fonvielle, que conseguiu escapar ileso. A cena trágica chegou a ser reproduzida por publicações da época.
Victor Noir ainda teve forças para descer as escadas, mas tombou na entrada da residência. Ele morreu após três minutos de agonia, sem conseguir dizer nada. O jovem ainda foi levado pelos amigos até o antigo número 27 da mesma rua (atual 42), onde funcionava uma farmácia, mas já era tarde. O príncipe foi preso logo em seguida.
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| Victor Noir morto (Biblioteca Nacional da França / Gallica) |
O que aumentou drasticamente a comoção popular foi o fato de que Victor estava com o casamento marcado. A identidade de sua noiva nunca foi revelada; o que se sabe é que as crônicas da época se referiam a ela apenas como a “noiva de um mártir”.
O julgamento e a queda do Império
O funeral de Victor Noir foi um acontecimento histórico. Acredita-se que em torno de 100 mil pessoas participaram do cortejo, transformando o luto em um massivo protesto político que ganhou enorme destaque na imprensa.
Pierre Bonaparte foi a julgamento na Suprema Corte de Justiça alegando legítima defesa.
O príncipe afirmou ter sido esbofeteado por Victor Noir e que atirou para se defender de um homem bem mais jovem, alto e forte. O colega de Noir, Ulric de Fonvielle, que havia escapado dos tiros, desmentiu a versão: o Príncipe teria agredido Victor Noir e, em seguida, atirado à queima-roupa. Segundo a testemunha, o jornalista havia se comportado de maneira elegante desde o início do encontro.
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| Príncipe Pierre-Napoleão (foto: Eugène Disdéri, Musée Carnavalet) |
Como a Corte era amplamente favorável aos monarquistas, o príncipe acabou absolvido do assassinato, sendo condenado apenas a pagar uma pequena indenização à família da vítima.
A morte do jovem jornalista e a subsequente absolvição do assassino acenderam de vez o estopim da revolta popular. Noir virou instantaneamente um mártir da República contra a tirania imperial.
A pressão se tornou insustentável e, meses depois, o Império desmoronou. A casa do príncipe foi invadida e destruída. Pierre Bonaparte, que acumulava um histórico de crimes, fugiu para a Bélgica. No fim da vida, precisou da ajuda financeira de parentes para se manter, falecendo em 1881, em Versalles.
A escultura de Jules Dalou e a explicação do mito
Em 1891, com a República já consolidada na França, os restos mortais de Victor Noir foram transferidos do cemitério de Neuilly para o prestigiado Père Lachaise. O renomado escultor Jules Dalou foi o escolhido para criar o monumento em homenagem ao jornalista.
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| Na área genital, o bronze polido (foto: Élcio Braga) |
O editor de fotografia do jornal O Globo, Paulo Moreira, explica o conceito da obra: “A arte tumular dele foi feita retratando como ele morreu com a cartola caída, com a bengala do lado, naquela posição de como ele foi atingido.”
O realismo anatômico da obra impressiona, e foi justamente esse detalhe que, mais tarde, mudaria completamente o destino daquele pedaço de bronze. O mitólogo José Carlos Leal traz uma explicação curiosa sobre a anatomia da estátua: “E na hora da morte ele teve um priapismo que faz com que o órgão genital não volte a sua posição tradicional. Aquela ereção foi a que ele ficou devendo a noiva.”
Por volta da metade do século XX, nasceu um folclore urbano em Paris: dizia-se que a estátua tinha poderes de fertilidade. Beijar os lábios do monumento, tocar na proeminência sob as calças de bronze e deixar uma flor em sua cartola traria amor verdadeiro, uma gravidez desejada ou melhoraria a vida íntima.
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| Visitantes tocam na escultura por fertilidade (foto: Élcio Braga) |
“A partir daí começou a se gerar uma lenda na cidade de Paris que as mulheres que queriam engravidar teriam que ir lá no túmulo do Victor passar a mão naquela região e fazer o pedido e ela engravidava”, contextualiza Paulo Moreira.
Das orgias ao fenômeno viral do TikTok
Nos anos 2000, com a chegada da internet e dos blogs de viagem, o mistério de Victor Noir cruzou definitivamente as fronteiras da França. O que antes era uma lenda local parisiense virou um ponto turístico obrigatório para viajantes e fotógrafos do mundo todo, que tentavam capturar a mística e o comportamento quase ritualístico dos visitantes diante do bronze.
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| Nas redes sociais, Victor Noir é um sucesso |
cima do túmulo.”
A situação ficou tão complexa que, em 2004, a administração do cemitério chegou a colocar uma cerca ao redor do túmulo para evitar o desgaste e proteger a dignidade do monumento. “Uma época o Père Lachaise gradeou o local para evitar exatamente que houvesse orgias em cima do túmulo”, relembra Moreira.
No entanto, os protestos das parisienses foram tão grandes e barulhentos que a barreira acabou sendo retirada pouco tempo depois.
Com isso, Victor Noir provou que não derrubou apenas um império com sua morte precoce; ele acabou desafiando o próprio tempo. “Até hoje se você for ao Père Lachaise ao visitar o túmulo do Victor você vai ver a escultura tem uma área bem polida, digamos assim”, diverte-se Paulo Moreira.
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| Paulo Moreira: ensaio sobre arte tumular (foto: Élcio Braga) |
Questionado se ele próprio chegou a tocar no monumento em busca de fertilidade, o fotógrafo confessa: “Não, eu não toquei lá, mas a curiosidade é enorme porque o negócio é mesmo impressionante. Isso obviamente não me faz menos ou mais, mas obviamente estamos no Père Lachaise em cima de um túmulo histórico, por que não, né?”
Mais de um século e meio depois, o jovem jornalista continua recebendo visitas diárias. Hoje, Victor Noir se tornou também um fenômeno viral no TikTok e no Instagram. Turistas do mundo todo continuam deixando flores, beijando e tocando a estátua na busca pela fertilidade e por sorte no amor.
Quem visita o Père Lachaise hoje não vê apenas um túmulo... testemunha, ao vivo, um mito em bronze.


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