sábado, 23 de maio de 2020

Brigadeiro que inspirou doce morreu solteiro aos 84 anos



Eleição de 2 de dezembro de 1945: as mulheres vão votar pela primeira vez para presidente no Brasil. E um candidato as fazem suspirar: Eduardo Gomes.

— Ele (Eduardo Gomes) tinha um fã clube enorme de mulheres pelo fato de ser solteirão, ter boa imagem — diz o historiador Lucas Striguetti.

Um grupo de admiradoras cria um doce e o batiza de brigadeiro para vender e reforçar o caixa da campanha. O doce se tornará um dos mais conhecidos da culinária brasileira e romperá fronteiras. Mas o resultado da eleição será indigesto. Este é o doce sabor da derrota de Eduardo Gomes, um dos lendários combatentes dos 18 do Forte.

Imagem icônica da caminhada dos "18 do Forte"
(foto: Zenóbio Couto/ Correio da Manhã)
— Pensa assim: ‘18 marchando contra um governo, é palhaçada.’ Foi sério. Morreu gente — observa o historiador, Adler Homero.

— Ele praticamente não comentava sobre a Revolta do Forte de Copacabana. Ele morreu solteiro em 1981 — completa o historiador Milton Teixeira.

— Faz aquele Brigadeiro da panela e vai comendo na colher. Que delícia. Quem é que não gosta de brigadeiro, gente? — pergunta a atriz Desirée Oliveira, a mulata do Zorra Total.

Nesta história, veja a receita mágica de um doce, inspirada no brigadeiro Eduardo Gomes, que se espalhou pelo mundo. E mais: o que historiadores falam sobre este homem tão reservado, respeitado e que guardava um grande segredo...

PASSEIO NO PARQUE


No Aterro do Flamengo, o professor João Baptista Ferreira de Mello, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, guia um grupo de interessados em História. É mais um passeio do projeto Roteiros Geográficos, que oferece visitas guiadas, gratuitas, a regiões históricas na cidade.

— Ele perdeu a eleição, Eduardo Gomes, para o Dutra, em 1945. Eduardo Gomes era um homem
João Baptista: aula na rua sobre a origem do doce brigadeiro
muito bonito. Mas na coisa lá dos 18 do Forte, em Copacabana, ele perdeu, né? Levou um tiro e perdeu... — diz o professor, do Departamento de Geografia.

O professor, bem-humorado, tem a atenção de todos, com um megafone na mão.

— As mulheres tinham muita admiração por ele (Eduardo Gomes) porque ele era um homem muito bonito e, como ele era brigadeiro, elas faziam o doce, agora famoso, em homenagem ao brigadeiro. Elas não só fizeram campanha como nomearam o doce de brigadeiro.

Apontando para o Aterro do Flamengo, bem em frente ao antigo prédio da TV Manchete, na Glória, ele explica que Eduardo Gomes é homenageado naquele bairro.

— Oficialmente este parque tem o seu nome: Parque Brigadeiro Eduardo Gomes. Quando comer brigadeiro lembre-se do Eduardo Gomes —  diz o professor, que percebe um riso na parte de trás do grupo —. O outro está rindo. Você não vai comer o Eduardo Gomes, você vai comer o brigadeiro. O Outro está se escangalhando de rir.

O Forte de Copacabana em foto aérea de 1922
(Foto: Acervo DPHDM)

RIO DE JANEIRO, 1922


— O ex-presidente Hermes da Fonseca, o general Hermes da Fonseca, o filho dele era o comandante do Forte (Euclides Hermes da Fonseca). E circulou que haveriam cartas desabonadoras do presidente da República contra o general Hermes. Cartas falsas. ‘Fake news’ em 1922. A imprensa levantou esta questão que estavam atacando o Hermes da Fonseca, que era uma figura respeitável. Tinha sido presidente da República — diz o historiador Adler Homero, o maior especialista em fortificações históricas no Brasil.

O presidente ainda é Epitácio Pessoa.  Arthur Bernardes havia vencido eleição conturbada e assumiria apenas em novembro de 1922.

— O Hermes da Fonseca se rebelou contra essa questão. Ele era presidente do Clube Militar, ele foi preso. Contra essa prisão e contra essas cartas desabonadoras houve uma série de pequenas revoltas, inclusive da guarnição do Forte de Copacabana. Os outros pontos foram facilmente reprimidos. Só ficou o forte — observa Adler.

É neste momento que um jovem idealista se apresenta no forte para se unir aos revoltosos. Ele vai entrar para a História do Brasil. Seu nome, Eduardo Gomes, nascido em 20 de setembro de 1896.
Ele vem de uma família de posses que empobrece.

Os pais de Eduardo: Luís e Jenny Gomes
— A mãe dele, Jenny Gomes, de uma família muito importante. Ela era filha de um visconde. O pai dele, Luís Gomes, era da Marinha. Ele vai sair da Marinha. Ele tinha um plano de construir uma ferrovia. Então, ele vai fazer muito investimento. Ele vai pegar todo o dinheiro que ele tinha guardado — conta o historiador Lucas Striguetti, autor do livro "O pensamento político do Brigadeiro Eduardo Gomes".

Mas, o negócio fracassa. Em dificuldades financeiras, Luís, a mulher e os filhos se mudam para Petrópolis. Ele consegue emprego no Jornal do Brasil.

— Eduardo Gomes gostava muito de ler, muito quieto, bom aluno, tanto é que foi apelidado de O Matemático — diz Striguetti.
Eduardo Gomes, aspirante

Aos 20 anos, Gomes ingressa na Escola Militar de Realengo. Considerado reservado pelos colegas,
recebe o apelido de ‘Frei Eduardo’. Já é tenente, quando toma conhecimento da rebelião no Forte de Copacabana, e decide se unir aos revoltosos.

Neste momento, o forte é cercado por forças leais ao presidente Epitácio Pessoa.

— O Brasil tinha um encouraçado, o São Paulo, armado com canhões de 305 milímetros. Disparava uma bala deste diâmetro, desta altura, de 390 quilos. Ele foi para Copacabana, ancorou e disparou contra o forte. Várias vezes. Só que o forte era muito bem feito e não chegou a fazer efeito — explica Adler Homero.

Os rebeldes respondem com mais disparos.

— O Forte de Copacabana chegou a disparar contra a cidade. Fez vários disparos. Matou civis. Eles atiraram no Forte do Leme e mataram quatro soldados que estavam fazendo a refeição — acentua Adler.


Correio da Manhã anuncia reação do governo
O Rio já é uma cidade com mais de 1 milhão de habitantes, conforme mostra o Censo de 1920. O cenário do conflito, Copacabana, porém, só possui 22 mil moradores. Os revoltosos buscam apoio.

Tenente Newton Prado observa
a movimentação (Foto: Careta)
— Eles tinham a esperança que o movimento fosse apoiado por várias outras unidades no Rio de Janeiro, que derrubaria o governo. Seria um golpe militar. Não deu certo — comenta Adler.

Curiosos se aproximam do forte para assistir ao desfecho do impasse. O tenente Newton Prado, com seu fuzil, observa o cenário. As forças federais, leais ao presidente Epitácio Pessoa, se posicionam para o embate.

— Muita gente foi para o forte apoiar o movimento. Chegou a ter 300 pessoas dentro do forte. Só que viram que não ia dar certo, então, começou a haver uma debandada geral. Ficaram muito poucos dentro do forte — acrescenta Adler.

Cercados, os revoltosos precisam tomar uma decisão.

— O Siqueira Campos queria tacar fogo no forte, explodir o forte, enfim, matar todo mundo, fazer um suicídio coletivo — conta Lucas Striguetti.

Mas, os revoltosos decidem seguir a proposta apresentada por Eduardo Gomes.

— Então, eles resolveram fazer uma demonstração. Um ato de resistência. E saíram… saíram uns 20 e poucos marchando contra o governo pela Praia de Copacabana — observa Adler Homero.


Os revoltosos caminham e recebem apoio de populares

MARCHA PARA A MORTE


O relógio marca duas horas da tarde.

— A marcha começou com mais de 20. Se não me engano foram 29, os pedaços da bandeira que foram rasgados e distribuídos para cada um deles. Só que ao longo do caminho, eles foram do Posto 6 ao Posto 4, alguns que sentiram que a coisa não ia dar certo foram sutilmente saindo pelo escanteio, assim. E um se juntou ao movimento, um civil, Francisco Otaviano. Ele aparece bem na fotografia que aparecem os 18 marchando pelo forte — explica Adler.

Entrada do Forte de Copacabana: daqui saíram os revoltosos

ÉLCIO BRAGA: Entramos aqui na Rua Francisco Otaviano. Logo ali na frente, no encontro com a Avenida Atlântica, à direita, fica o Forte de Copacabana. É daqui que saem os revoltosos, com suas armas, em direção ao Leme.
Fico imaginando o que eles pensavam durante este trajeto até a Rua Barroso, hoje Rua Siqueira Campos. Eduardo Gomes provavelmente pensava na mãe. Ele era muito apegado a mãe,  a família, religioso...


— Só que chega determinado momento, onde tem inclusive a estátua na Siqueira Campos, ali dos 18 do Forte, e houve um massacre — conta Adler.

De acordo com a Gazeta de Notícias, os revoltosos se entrincheiraram nas areias da praia. Os confrontos finais teriam sido de faca.

— O governo chegou a mobilizar 5 mil soldados pra reprimir o movimento. Pouco mais de dez que restavam do movimento contra centenas de soldados, a coisa acabou rapidamente. Não morreram todos. Inclusive, alguns saíram feridos — completa Adler.

Fim dos combates. Feridos e mortos na praia de Copacabana
Segundo o jornal O Paiz, o conflito teria durado uma hora e 20 minutos. Nesta imagem, vemos o resgate de mortos e feridos.

No dia seguinte, a Gazeta estima em 20 o total de mortos. Entre os revoltosos teriam sobrevivido apenas Siqueira Campos, Eduardo Gomes e mais dois ou três praças.

— O Eduardo Gomes recebeu um ferimento na virilha. Os que sobreviveram foram presos, mandados para prisão na Ilha da Trindade — acrescenta Adler Homero.

O presidente da República visita os feridos no hospital.

— Epitácio Pessoa chega para o Eduardo Gomes, ferido, que estava na maca, e perguntou porque ele participou de um movimento desse. Falou que conhecia o pai dele, o Luís Gomes, e o Eduardo Gomes fala que não se arrepende de nada, que ele fez aquilo que ele achava que era certo — diz Lucas Striguetti.

Epitácio perguntou a Gomes o motivo da revolta
O ferimento de Eduardo Gomes é grave.

— Ele tomou um tiro na perna esquerda. Sofreu uma fratura no fêmur. E ele só foi melhorar da perna esquerda depois que ficou preso numa ilha, Ilha da Trindade — assinala Striguetti.

Mas outra versão se espalha.

— Mas na época, sempre correu esse boato, que ele teria ficado incapacitado e nunca teria tido filhos por causa disso. Tanto que corria o apelido que ele era o belo Antônio. Ele era bonito, mas não era de nada — observa Adler Homero.

No livro ‘A Trajetória de um Herói’, o escritor Cosme Degenar Drumond, já falecido, cita apenas um namoro mais sério do brigadeiro. A jovem o teria visitado, inclusive, no Forte de Copacabana, antes do combate. Depois, segundo o biógrafo, Eduardo teria apenas breves namoros.

— Na adolescência, ele até teve uma paixão por uma moça. Mas o fato é que ele sempre dizia que a vida dele, por ele participar de revoluções, de estar envolvido em movimentos políticos importantes, ele achava que não deveria se relacionar com ninguém — destaca Striguetti.

Para outros historiadores, o tiro teria destruído qualquer sonho do jovem oficial viver um grande amor.

Farda de Gomes na revolta (Foto: Musal)
— Você vai lá no Museu Aeroespacial, a farda está lá. Tiro de fuzil, fuzil Mauser. Um balaço, deste tamanho, destruiu… e tem mais, dependendo da distância que foi acertada, a bala entra girando dentro de você. Então, já viu, vai estraçalhando tudo — alega o historiador Milton Teixeira.

Após se recuperar e passar um tempo na prisão, Eduardo Gomes volta a conspirar.

Ele participa da Rebelião Militar de 1924, em São Paulo. É preso quando tenta se integrar à Coluna Prestes. Libertado em 1926, volta a ser preso em 1929.

A sorte de Eduardo Gomes começa a mudar em 1930. Ele participa das ações que derrubam o presidente Washington Luís. Como um dos sobreviventes da Revolta dos 18 do Forte, passa a ser valorizado na carreira militar.

— Esse movimento se tornou uma bandeira do movimento tenentista contra a situação da República Velha. Então, quando houve a Revolução de 1930, se pegou esse símbolo que era contra a situação da oligarquia e contra o governo corrupto que havia e eles viraram um símbolo cultuado pelo governo Vargas — avalia Adler.

Gomes participa do laçamento do Correio Aéreo Militar

Gomes recebe seguidas promoções. Ajuda a criar o Correio Aéreo Militar, mais tarde Correio Aéreo Nacional.

Em 1935, Eduardo Gomes atua contra o levante da Intentona Comunista. Mas se afasta do governo após a decretação do Estado Novo em 1937, um golpe de Getúlio para permanecer no poder. Em 1941, é promovido a brigadeiro.

ELEIÇÕES DE 1945


Com a queda do governo Vargas, em 1945, a recém-criada União Democrática Nacional escolhe Eduardo Gomes como candidato a presidente.

— Ele (Eduardo Gomes) simbolizava aquela imagem de herói dos 18 do forte de Copacabana — conta Lucas Striguetti.

Charmoso, Gomes logo conquista a atenção do eleitorado feminino.

— Em 1945, as mulheres pela primeira vez votaram para presidente — observa Striguetti.

Frame de filme do Tribunal Eleitoral em 1945
Neste vídeo, vemos uma simulação do Tribunal Eleitoral para orientar o voto, em 1945.

Só que há um problema: a campanha do candidato da UDN patina sem recursos. Mas, aí, surge um doce mágico.

— Na época havia uma mulher chamada Heloisa Nabuco e ela fazia doces maravilhosos e daí a UDN, para juntar fundos, fazia chá, café da tarde, enfim. Foi nesse momento que essa Heloisa apareceu com o doce de leite condensado e chocolate para homenagear o Eduardo Gomes. Colocou o nome de brigadeiro já que ele era brigadeiro da Aeronáutica. E esse docinho pegou — explica Lucas Striguetti.

Versão mais popular é de que docinho foi criado no Rio
Há versões menos conhecidas que indicam que a criação do doce teria ocorrido em São Paulo, em Minas Gerais ou até no Rio Grande do Sul, onde seria conhecido como ‘negrinho’.
O fato é que o doce, como ‘brigadeiro’, ultrapassou as fronteiras. Há quem o chame até de trufa brasileira.
As mulheres ajudavam a propagar, ainda, o slogan: “Vote no Brigadeiro, que ele é bonito e é solteiro!”

Avenida Atlântica, o local do embate 98 anos depois
ÉLCIO BRAGA: Exemplo da acirrada disputa entre Dutra e Eduardo Gomes. A cena se passa em um almoço na minha família, em uma área rural em Queimados, no Rio. Durante a eleição de 1945, uma prima do meu pai, uma criança, então, de seis anos, diz que quer um brigadeiro. O tio dela lhe dá um tapa na cara e deixa todos os presentes constrangidos. Ele era eleitor do general Dutra.


Um episódio prejudica a campanha do brigadeiro.

— O Eduardo Gomes estava no Theatro Municipal. Estava realizando um discurso e falou que não precisava do voto dessa malta de desocupados. Só que ele estava se referindo a outra coisa. Então, você tinha na época o Hugo Borghi. Ele estava defendendo o Dutra, né? Ele trabalhava no rádio. Ele viu que o Eduardo Gomes citou o termo malta. Então, ele foi procurar no dicionário o significado. Um deles, relacionado a trabalhadores, que levavam a sua marmita. Ah, ele teve uma ideia e resolveu colocar na mídia que o Eduardo Gomes quis dizer que não necessitava do voto dos marmiteiros, dos mais pobres — conta Lucas Striguetti.

E mais boatos são disparados. Os adversários afirmam que o brigadeiro, se eleito, proibirá os negros de andar de bonde, usar gravata ou ir a praia e ao cinema.

— O discurso dele era muito extenso, termos difíceis — observa Striguetti.

Mas o doce não muda os rumos da eleição.

— Foi uma disputa muito cerrada, mas o Dutra era um candidato que era apoiado pelo Vargas que tinha um prestígio muito grande. Então, as chances do Eduardo Gomes ganhar eram pequenas — assinala Adler Homero.

RIO DE JANEIRO, 1950


Mas o Brigadeiro não desiste. Ele volta a se candidatar a presidente em 1950, agora contra Getúlio Vargas.

— Eu penso que em 45 e principalmente 50 o Eduardo Gomes defendia uma terceira via para o nosso país. Ele pensava em uma reforma para o capitalismo. E em muitos momentos ele vai colocar a sua posição liberal. Então, por exemplo, ele achava que o ensino teria de ser gratuito para todo mundo. Não deveria existir escolas particulares. Mas ele defendia também o sistema meritocrático. Até o poeta Carlos Drummond de Andrade vai fazer um conjunto de três poemas falando sobre Eduardo Gomes. Ele tinha um plano muito revolucionário pensando na educação, pensando nos mais humildes e mais pobres, para a época — diz Striguetti.

Neste cartaz da campanha, aparece com sua mãe, dona Jenny, com quem vivia. Mas perde novamente.
Após a morte de Vargas, Gomes vira ministro

— Eu penso que em 45 e, principalmente, 50, o Eduardo Gomes defendia uma terceira via para o nosso país. Ele pensava numa reforma para o capitalismo.Em muitos momentos, ele vai colocar a sua posição liberal. Então, por exemplo, ele achava que o ensino deveria ser gratuito para todo mundo. Não deveria existir escolas particulares. Mas ele defendia também o sistema meritocrático. Ele tinha assim um plano muito revolucionário, pensando na educação, nos mais humildes, nos mais pobres, naquela época — observa Lucas Striguetti.

Em 1954, o brigadeiro se envolve na campanha pelo afastamento de Getúlio Vargas. A crise culmina com o suicídio do presidente.

— O Café Filho, vice do Getúlio, toma o poder e chama o Eduardo Gomes para ser o ministro da Aeronáutica — afirma Striguetti.

Dez anos depois, o brigadeiro participa do Golpe de 1964, que pôs fim ao governo de João Goulart. Torna-se novamente ministro da Aeronáutica, em 1965, na presidência de Castelo Branco.

— A princípio, ele apoia o golpe civil-militar achando que ia ser bom para o Brasil, mas vendo que estava demorando muito para a volta de um civil ao poder, ele acaba sendo contra — assinala Lucas Striguetti.

Mesmo fora do Governo Militar, no período mais linha dura, intercede em favor do capitão Sérgio Macaco, que havia denunciado o chefe de gabinete do Ministério da Aeronáutica de planejar explodir o Gasômetro no Rio.

A intenção seria pôr a culpa em inimigos do regime e prender oposicionistas. Gomes questiona ações que não correspondem aos valores cristãos. Nesta época, já é visto como uma lenda viva pelos militares.

Gomes se torna uma lenda viva. É apelidado de 'O Velho'
— Ele era muito respeitado. O pessoal falava ‘lá vem o Eduardo Gomes, lá vem...’ Ele tinha o apelido de ‘O Velho’ neste período — assinala Striguetti.

O brigadeiro vive com simplicidade.

— Quando ele sai da Aeronáutica, ele se aposenta, passou a ir com mais frequência às missas aos domingos. Ele morava na Praia do Flamengo. Gostava de fazer caminhadas. Ele gostava muito, também, de usar um terno escuro. Para você ter uma ideia, metade do salário dele, ele doava para os pobres de Petrópolis e missões religiosas — diz Striguetti.

O seu prazer é ir ao Maracanã, misturado ao grande público. Gosta também de ir ao cinema. Era fã de Greta Garbo.

Apesar de ter alcançado o posto de marechal-do-ar em 22 de setembro de 1960, é como brigadeiro que gosta de ser chamado.

É com esta patente que ele, nas eleições de 1945, havia ficado na memória do povo brasileiro e também no paladar.

Nos livros de História, é sempre lembrado por sua participação no movimento ‘Os 18 do Forte’. Mas, para o brigadeiro, este parece ser um assunto proibido.

— Ele praticamente não comentava sobre a Revolta do Forte de Copacabana. Foi o último sobrevivente. Passou o aniversário da Revolta do Forte de Copacabana... queriam entrevistá-lo… Mas na época da Ditadura Militar, você falava se queria e bem entendia, ainda mais militar. E ele não dava entrevista. Não concedia entrevista. Eu só conheço um depoimento dele sobre o Forte de Copacabana, que foi para determinar o local que deveria ser o monumento aos 18 do Forte, na Praia de Copacabana e ele escreveu um documento, escrevendo que era ali que tinha ocorrido o tiroteio — pondera o historiador Milton Teixeira.

Uma outra informação preciosa, revelada pelo brigadeiro, já no fim da vida, envolve o número de revoltosos que teriam participado do combate final: segundo ele, 13 homens e não 18.

— Pessoas que o conheceram diziam que ele ia nas solenidades do 5 de julho e não dava depoimento nenhum. Isso eu conversei com muita gente que esteve com ele… assim, e claro, se eu fosse traumatizado como ele, eu também não daria... — acrescenta Teixeira.

A última foto do brigadeiro. No dia seguinte, estaria morto (foto: FAB)

Esta foto foi tirada em 12 de junho de 1981. Bem fragilizado, Eduardo Gomes participa das comemorações dos 50 anos do Correio Aéreo Nacional, no Rio de Janeiro. É a última aparição pública. No dia seguinte, com problemas cardíacos, estaria morto.

Três anos após a morte, em 1984, Eduardo Gomes é declarado Patrono da Força Aérea Brasileira. Hoje seu nome está no Aeroporto Internacional de Manaus. E também no parque que ocupa parte do Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Em Belo Horizonte, virou importante avenida. O brigadeiro é homenageado ainda em muitos outros logradouros pelo país.

Mas a homenagem que o torna tão próximo de todos nós é mesmo o doce da campanha malsucedida de 1945.

O brigadeiro ganhou lojas no exterior

sábado, 9 de maio de 2020

Enfim, sabemos para quem foi feita 'Your song', maior sucesso de Elton John



Por que raios Bernie Taupin compôs 'Your song', em parceria com Elton John? Essa música foi o primeiro grande sucesso de Elton John. A canção, embora simples, se tornou o primeiro e o maior sucesso na carreira de Elton John. Sempre tive curiosidade de saber como foi composta. Por isso, resolvi pesquisar tudo sobre esta canção. Procurei críticos de música, jornalistas e até historiadores para descobrir a resposta. O resultado é este vídeo que você está vendo incluído aqui nesta postagem.

 Logo que coloquei o vídeo, por coincidência, lançaram logo depois o filme 'Rocket-man', que conta,  de uma forma livre, um pouco sobre a trajetória de Elton John. No princípio do filme, revela-se como 'Your song' surgiu.

Bernie Taupin era um rapazola quando escreveu a bela poesia, durante um café da manhã, na casa dos pais de Elton John, onde estava hospedado. Só precisou de 20 minutos para compô-la em um pedaço de papel sujo de café. Elton John recebeu a letra e, em torno de outros 20 minutos, compôs a melodia em seu piano branco. Assim nasceu a obra-prima. Nesse ponto, todo mundo concorda.

O filme, porém, deixa a entender que a música corresponderia a um amor platônico de Elton John pelo amigo, diferentemente do vídeo que elaborei. Felizmente, em uma reportagem publicada posteriormente ao lançamento do longa, Bernie Taupin, enfim, consolida a versão que coloquei no vídeo.

O compositor garante que a letra não foi feita para ninguém em especial, nem mesmo destinada a Elton John. Muita gente suspeitava que seria para alguma namorada de Taupin. Mas ele nega. Já coroa, por que mentiria? Acho que 'Your song' não foi feita para ninguém em especial. Por isso, pode ser de todo mundo.

Bernie Taupin compartilha a verdadeira inspiração por trás de "Your Song", de Elton John

sábado, 21 de março de 2020

Maior ataque de tubarão da História inspirou filme e, por tabela, o Aquário do Rio



Élcio Braga
Rio, terça-feira, 24 de março de 2020

Em 1975, o filme ‘Tubarão’ deixou plateias atônitas em todo o mundo. As cenas impactaram especialmente um jovem de 16 anos, petrificado na poltrona de um cinema, no Rio de Janeiro. Hoje, ele é o fundador e dirige o maior aquário marinho da América do Sul, o AquaRio.

Esta história é sobre um dos mais extraordinários animais de todos os tempos: o tubarão. Mas é também sobre como um filme pode mexer com a nossa vida.

Na década de 1990, eu trabalhava na movimentada redação do jornal O Dia, no Rio. Lembro de um biólogo marinho que, contra o senso comum da época, costumava chamar a nossa atenção sobre a necessidade de se preservar o tubarão. Era Marcelo Szpilman.

Vinte anos depois, reencontrei Szpilman durante viagem à Trindade e Martim Vaz, o arquipélago do Brasil mais distante da costa.

— Eu dou uma palestra há muitos anos já. Já dei quase 200 palestras no Brasil todo sobre “Mitos e verdades sobre os tubarões”. Exatamente para desmistificar a questão do tubarão, mostrar que ele não é aquela fera assassina que o filme do Spielberg mostra. Nada. Totalmente diferente disso — conta Szpilman, formado em Biologia Marinha pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e hoje diretor-presidente do Aquário do Rio.

A bordo do navio-patrulha Amazonas, da Marinha Brasileira, pude acompanhar duas palestras de Szpilman. Uma delas foi na Praça D'Armas, o cassino dos oficiais.

— Nenhuma cena do filme ('Tubarão'), praticamente nenhuma, é verdadeira. Não existe esse ataque de levar aquela mulher pra lá e pra cá. Não existe tubarão mastigando ninguém. Nada daquilo é verdadeiro. Mas o cara fez tão bem... eu, quando assisti, tinha 14 anos de idade. Fiquei com medo de entrar na piscina. Mas, a partir daí, as pessoas começaram a ter fobia de tubarão — assinala.

Stethacanthus viveu no período Devoniano. Media até 2 metros

OS PRIMEIROS TUBARÕES


Há 400 milhões de anos, a Terra era bem diferente: o período Devoniano. Mas tubarões pré-históricos, peixes de esqueleto cartilaginoso, já cruzavam os mares.

O tubarão moderno surgiria 100 milhões de anos atrás. Mas descobriríamos a espécie mais impressionante ao analisar fósseis de baleias, com marcas de mordidas mortíferas. Que animal seria capaz de abocanhar uma baleia? O megalodonte. A maior mandíbula já reconstituída de um exemplar, estimada por dentes fossilizados, possuía 3 metros e 35 centímetros de largura por 2 metros e 75 de altura.



O megalodonte, tema de filmes de ficção, surgiu há 23 milhões de anos. O tamanho variava entre 12 e 16 metros de comprimento, com 50 toneladas, mas se acredita que possa ter havido exemplares de 20 metros. O resfriamento da Terra contribuiu para a extinção dessa espécie há cerca de 2 milhões e meio de anos.

Mas a preocupação de Marcelo Szpilman é com a imagem dos exemplares modernos. Existe uma variedade enorme de espécies. O tubarão-lanterna anão (Etmopterus perryi) possui no máximo 21 centímetros de comprimento. E temos ainda o dócil tubarão-baleia (Rhincodon typus), que pode passar de 12 metros.

Na palestra do navio-patrulha Amazonas, Szpilman apresenta os tubarões atuais.

— Pra você ver: são 400 espécies. Mais ou menos, 90 no Brasil. Dezoito com registros de ataque não provocado. Destas, 18, 15 têm dois, três, quatro ataques nos últimos 500 anos. Não representa nenhuma ameaça!

Não provocado é quando o ser humano não tem responsabilidade no ataque. Szpilman identifica três espécies que podem atacar o homem sem uma razão aparente.

— Desses três tubarões, tem o tubarão-branco, cabeça-chata e o tubarão-tigre. Nesses ataques, 90% são por erro de identificação visual — observa o biólogo.



— Esse é o cabeça-chata. Cabeça-chata é o tubarão mais perigoso em águas tropicais. Sem dúvida nenhuma. Este é um animal que entra em água doce, vive em água doce quanto tempo ele quiser. Esse animal frequenta água muito próxima, muito rasa. E este é o tubarão que mais está envolvido em ataques no Nordeste. E foi provocado pelo ser humano. O homem, na década de 80, começou a construção do Porto de Suape. Aterrou o mangue todo daquela região. E, mais do que isso, fechou duas bocas de rio, onde a fêmea do cabeça-chata paria o filhote em água doce. E onde ia parir o filhote (depois da construção do porto)? Alimentação diminuiu. Então, ela se deslocou pra Grande Recife — pondera.

O jornalista Felipe Garraffa, da TV Bandeirantes, cobriu uma série de ataques de tubarão na Grande Recife.
Garraffa: mordida experimental
— Não é que o tubarão quer atacar o ser humano. Ali, naquela região do Recife, a água é muito turva, sobretudo durante o verão brasileiro. Então, o tubarão não consegue enxergar. Ele consegue pelo sensor dele identificar que tem uma movimentação na água e ele faz a chamada mordida experimental. Na hora que ele morde, ele sente que é humano. Alguma coisa não atrai ele. Não é de interesse dele. Tem muito osso. Ele faz a mordida experimental e depois sai — diz Garraffa.

Turista paulista de 18 anos morre após ataque de tubarão na praia da Boa viagem, em Recife, em julho de 2013

— Conversei aí com alguém que foi atacado e essa pessoa fez um relato muito interessante da velocidade que acontece tudo isso. Ele estava nadando, numa boa para pegar uma onda ali, não deu para sentir a aproximação e, de repente, a mordida. A mordida, ele apaga e acorda no hospital com o braço esquerdo amputado — completa o jornalista.

MAIOR ATAQUE DA HISTÓRIA


O tubarão pode identificar substâncias diluídas na água em uma parte por milhão. Equivale a sentir uma gota de sangue a 300 metros de distância.

— Antigamente, espero que seja antigamente, os navios costumavam ir jogando lixo, restos de comida e fezes e tudo na água — prossegue Szpilman em sua palestra, no navio Amazonas —. Então, esse tubarão-azul e o tubarão galha-branca oceânico vinham acompanhando os navios. É uma oferta de alimentos. E quando o navio afunda esses animais já estão no local. E, aí, é um problema que houve na Segunda Guerra Mundial. Muitos militares foram comidos. Navios afundaram, e marinheiros comidos por tubarões. Isto é real. Aconteceu. Aí, é uma orgia. Muito sangue na água. Aí, vira um frenesi.

Indianapolis, cruzador da Marinha americana, havia transportado partes da bomba de Hiroshima. Foto: Marinha dos EUA

Segunda Guerra Mundial: depois de deixar em uma base partes da bomba atômica que seria lançada sobre Hiroshima, o cruzador USS Indianápolis, da Marinha americana, navega no Oceano Pacífico.

— Um submarino japonês avista o USS Indianapólis e dispara seis torpedos. Um torpedo acerta a quilha do navio. Outro acerta o meio do navio, quase corta-o ao meio e, a partir daí, foi um processo muito rápido: explosões, o navio pega fogo, aderna e afunda em 12 minutos — conta Marco de Cardoso, jornalista e pesquisador em História Militar.

Marco de Cardoso: 'Sangue atraiu tubarões.' Foto: Élcio Braga

— O navio tinha uma tripulação de 1.196 homens. No impacto desses dois torpedos que atingiram o navio, mais ou menos, 300 morrem na hora. Mais ou menos, também, 900 sobrevivem e se jogam ao mar. Não tinha água, comida, salvaram assim umas poucas latas de ração. Sol, muito quente durante o dia e a noite um gelo. Esses cadáveres ficaram ali boiando, ensanguentados, e isso atraiu um cardume de tubarões.

— Aí, tem o relato de um marinheiro sobrevivente, chamado Loel Dean Cox, Ele deu graças a Deus de os corpos ainda estarem lá. Porque os tubarões comiam os corpos dos companheiros mortos e não atacavam os vivos. Só que chegou uma hora que os cadáveres acabaram.

Loel Dean Cox: sobrevivente. Foto: Marinha dos EUA

— E aí os tubarões começaram a atacar os marinheiros sobreviventes. Dean Cox relata que ele estava boiando na água nos destroços e tinha outro marinheiro ao lado dele. De repente o cara sumiu. Ele só ouviu os gritos.

— Alguns sobreviventes dão contas que tinham tubarões de quase cinco metros.

— Os 500 náufragos que morreram, pelo relato dos sobreviventes, 100 a 150 foram realmente mortos por tubarões e os restantes muitos deles morreram por que? Sem comida, sem água, de insolação, de hipotermia.




Como um dos torpedos atingiu o sistema elétrico do Indianapolis, não houve tempo para emitir pedido de socorro. Nenhuma operação de busca seria montada.
Cena do filme 'Homens de Coragem' (divulgação)

— Loel Dean Cox fala que um companheiro dele entrou num surto psicótico e começou a beber água do mar. E dizendo o seguinte: ‘Essa água tá muito boa, essa água tá muito boa’. E o cara morreu.

No quarto dia após o afundamento, ocorre o que se pode chamar de milagre.

— Os sobreviventes foram achados por acaso. Tinha um bombardeiro em uma missão de patrulha e, aí, ele avista os caras. Foram resgatados com vida, 300 — diz Marco.






Marco de Cardoso faz uma observação sobre os impactos dessa história, que mereceu grande espaço na imprensa americana na época.
Robert Shaw interpreta Comandante Quint (divulgação)

— Um dado interessante é que o filme 'Tubarão' é inspirado na história do USS Indianapolis. Tem um personagem nesse filme, comandante Quint (interpretado por Robert Shaw), era um dos marinheiros que estava lá no USS Indianapolis e foi um dos sobreviventes — diz Marco.

A cena é cult.

— O submarino japonês bateu dois torpedos ao seu lado, chefe. Estávamos voltando da ilha de Tinian para Leyte. Acabamos de entregar a bomba. A bomba de Hiroshima. Mil e cem homens se jogaram na água. O navio afundou em 12 minutos. Só depois de meia hora vi o primeiro tubarão. Um tigre de quatro metros. Sabe como se descobre isso na água, chefe? Você pode perceber olhando da dorsal para a cauda — descreve Quint, para os dois que o acompanham na caça ao tubarão assassino de um balneário nos Estados Unidos.

Gráfico exibido por Szpilman durante a palestra no navio-patrulha Amazonas

Depois dessa você deve estar achando que tubarão é perigoso. Mas há ameaças maiores. Szpilman mostra isso em sua palestra. Mais cartelas são apresentadas aos oficiais, pesquisadores e jornalistas que viajam para a Ilha da Trindade, a 1.160 quilômetros da costa brasileira.

— No mundo todo, em 100 ataques, no máximo dez pessoas morrem por choque hipovolêmico. Não é o tubarão comendo as pessoas. Quando uma pessoa é atacada, recebe uma mordida, ela sangra. Se ela não for retirada, ela vai entrar em choque, a pressão cai, o cérebro apaga e ela se afoga. É um afogamento secundário que, na verdade, é a causa mortis.

Szpilman alerta que outros animais matam muito mais, no entanto, o tubarão é que leva a fama de ‘fera assassina’.

— Leão: temos aí dezenas de pessoas todos os anos sendo comidas por leão. Então: leão, tigre, crocodilo: se você passar do lado dele, e ele estiver com fome, eu te dou 100% de certeza que ele vai te atacar e vai te comer como uma presa qualquer. Não faz diferença nenhuma pra ele. Tubarão, você mergulha com tubarão em água clara, não sabe se ele se alimentou, ele não vai te atacar.



E se você for grande mais seguro vai estar diante de um tubarão.

— Existe uma regra no mar, ao contrário da terra, que o grande sempre vai comer o pequeno. Então, eu tenho 1,84 metro, pé de pato de quase um metro. Eu tenho um tamanho mais ou menos igual ao da maioria dos tubarões. Ou até maior que a maioria dos tubarões. Então ele me respeita. Ele mantém a distância. Tubarão branco a gente usa gaiola por uma questão de proteção mesmo, também, nossa e dele, porque é um animal de seis metros, duas toneladas. Se ele resolver partir pra cima, é foda. Não tem o que fazer. Você é muito menor do que ele. Por isso, não recomendo criança mergulhar com tubarão.

— Aqui: animais domésticos que mais mordem em Nova York. Em uma única cidade americana, você tem 9 mil pessoas mordidas por cachorro, 1.500 pessoas mordidas por seres humanos, 800 por gato e 250 por rato. Mordida por ser humano: o cara vai na emergência sem orelha, sem nariz, sem dedo — observa.

— Na época do ‘Lula Sim – Lula Não’, duas mulheres brigaram, uma arrancou o dedo da outra. Declaração do marido: ‘Ela mordeu como se fosse um pit bull e tirou até o osso." Então, o ser humano é muito mais perigoso.


— Pra você ver, comparativamente, a cidade de Nova York comparando com o número de ataques nos Estados Unidos todo: 12.

— Isso é interessante. Tem empresas nos Estados Unidos que fazem estatísticas que as empresas de seguro usam. Aí tem ataque cardíaco um para 600, arma de fogo, afogamento, acidente com avião, ataque de cachorro um para 11 milhões, ganhar na Mega-Sena é de um para 50 milhões. Ataque de tubarão: um para 95 milhões. Ataque de tubarão: ser atacado, a estatística, é quase o dobro da Mega-Sena acumulada.

O VERDADEIRO PREDADOR


O maior predador do planeta, observa Szpilman, é o próprio homem.

— Pode passar. Falando do problema da pesca predatória e sobrepesca do tubarão. Você tem dois itens: Cápsula de Cartilagem, mas é uma grande bobagem. Dizem que a cápsula é antitumoral, mas não é verdade. Os caras derretem 250 mil tubarões por mês para transformar em cápsula de cartilagem. As pessoas tomam isso achando que está fazendo algum bem.


— Pode passar. Pesca de barbatana é outro item. Sopa de barbatana de tubarão é vista pelo oriental como símbolo de status. Quando havia uma elite consumindo barbatana, não era um problema. Mas o chinês colocou 300 milhões de chineses na classe média e média-alta e o sonho deles é ter sopa de barbatana para servir nas suas festas. É um mercado ilegal. E, como todo mercado ilegal, é altamente lucrativo. Os navios colocam o animal vivo a bordo, cortam as nadadeiras e jogam o animal vivo ao mar.


— Sobrepesca é a pesca feita de forma correta, mas além do limite que a espécie tem de se auto repor na natureza. Tubarão, a reposição dele é baixíssima. Ele chega ao tamanho de reprodução com dez a 15 anos. Taxa de mortalidade é alta.

— Se hoje a gente parasse: ninguém mais pesca tubarão, nós vamos levar, no mínimo, de 15 a 20 anos para repor uma parte desses tubarões.

A cartela (ao lado) mostra a situação crítica dos tubarões.

— Aí, você tem 100 milhões de tubarões mortos todos os anos, declínio acentuado de várias espécies. Quando você vai desmistificar tubarão, você tem de dizer às pessoas qual a importância do tubarão. Para salvar os tubarões ou pelo menos proteger os tubarões. Isso não acontece com tartaruga, baleia e golfinho. Quando você fala: “Vamos salvar as tartarugas”, todo mundo fala: ‘Claro, vamos salvar.”

A fecundação dos tubarões ocorre internamente. Dependendo da espécie, podem ser ovíparos, botam ovos, ovovivíparos, retêm os ovos no oviduto, ou vivíparos, o filhote se desenvolve no útero. Podem viver de 20 a 30 anos. Mas há espécies que podem passar dos 70 anos.

Szpilman destaca a importância dos tubarões no equilíbrio do ecossistema marinho.

Szpilman na Sala D'Armas: defesa dos tubarões
— O tubarão: para você preservar o tubarão, você tem de explicar qual a importância dele para a preservação do ecossistema marinho. Então, vamos lá: manutenção da saúde dos oceanos e controle populacional. Manutenção da saúde significa que ele come animais mortos, em decomposição, e animais moribundos. Ele é um dos grandes carniceiros dos oceanos. E se a gente acabar com os tubarões, vamos ter um problema de saúde no ecossistema.

— Controle populacional, como topo de cadeia, ele mantém equilibrada toda a cadeia abaixo dele. Você tira o topo, você desequilibra a cadeia. Existe um exemplo real, na Austrália. As pessoas acabaram com tubarões de uma baía e nessa baía os tubarões comiam polvos. Os polvos começaram a crescer sem controle. Eles comeram toda a lagosta daquela região. Existia uma indústria da lagosta que quebrou. Centenas de pessoas ficaram desempregadas. Então, um exemplo real do desequilíbrio que se provoca — assinala.

Na parte final da palestra, o biólogo apresenta fotos e vídeos de mergulhos com várias espécies de tubarão, como o cabeça-chata, o tigre e o famoso branco, que aparece no filme de Steven Spielberg.

Szpilman mergulha com o tigre na costa de Moçambique
— Pode passar. Aí, só mostrando que é possível mergulhar com tubarão, tubarão-tigre, cabeça-chata... pode passar, lombo-preto, tubarão-branco.

Todos acompanham a passagem de um enorme exemplar em frente a gaiola que protege Szpilman e seu grupo, no litoral da Ilha de Guadalupe, no Oceano Pacífico, próximo à costa da califórnia mexicana.

Ao terminar a apresentação, o biólogo marinho
Tubarão branco em Guadalupe (foto: Axel Blikstad)
pergunta se restou alguma dúvida. Um militar, na gozação, faz uma pergunta:

— Tubarão morde?

— Morde nada. É mentira.

E todos aplaudem o biólogo, hoje diretor-presidente do maior aquário marinho da América do Sul, o Aqua Rio, na Zona Portuária.





O Aquário do Rio: em três anos, 3,7 milhões de visitantes (foto: Élcio Braga)

Szpilman e o tubarão mangona do Aquário do Rio (foto: Severino Silva)

O biólogo no túnel do Aqua Rio: o ponto alto da visita (foto: Severino Silva)






quarta-feira, 11 de setembro de 2019

A ilha brasileira mais perto da África que vai desaparecer


ÉLCIO BRAGA

O cenário é assustador: um punhado de rochedos pontiagudos forma um arquipélago, no meio do Atlântico, a mil quilômetros do continente. É o pedaço do Brasil mais perto da África: chacoalhado frequentemente por terremotos, menor do que dois campos de futebol, sem vegetação nem fonte de água doce. Mas brasileiros moram aqui desde 1998, dividindo o parco espaço com caranguejos e aves. Este é Arquipélago de São Pedro e São Paulo.

A parte mais alta destas ilhotas remotas tem apenas 18 metros, e a profundidade ao seu redor é de 4 mil metros. Para complicar, o mar por vezes em fúria se torna ameaçador. Mas há razões para o Brasil se esforçar tanto para manter gente morando em um lugar tão inóspito: a exploração do mar de 200 milhas ao redor.

Dez ilhotas de pedra formam o Arquipélago de São Pedro e São Paulo 
Há muitas curiosidades e histórias sobre este território. Esta é a única ilha oceânica no mundo formada pelo manto terrestre, uma das entranhas mais profundas da Terra. Um italiano perdido no mar, com fome e sede, só sobreviveu ao ser visto à deriva próximo aos rochedos, coincidentemente após um estranho sonho.

— O que eu fico pensando é: o que um cara como Darwin, o que ele pensou quando viu um negócio daquele — pergunta o sismólogo Aderson Nascimento, coordenador do Laboratório de Sismologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

QUEDA DE AVIÃO

Parte do trem de pouso no fundo do Atlântico
Apesar de sua importância, o Arquipélago de São Pedro e São Paulo é praticamente desconhecido no Brasil. Mas, após a noite de 31 de maio de 2009, os Rochedos ou Penedos, como eram identificados no passado, mereceriam menção até no noticiário internacional. O voo 447 da Air France, que havia decolado do Rio de Janeiro rumo a Paris, sofreu uma pane durante violenta tempestade. O Airbus A330-203 caiu com 228 pessoas a bordo nas águas profundas do Atlântico, a aproximadamente 300 quilômetros do arquipélago. Ninguém sobreviveu.

Parte do motor no leito marinho, a mais de 3.700 metros
O avião havia deixado o alcance do controle de tráfego aéreo no Brasil e ainda não havia entrado na área de controle do Senegal, no lado africano. A região da queda fica no meio do nada. E é nesse lugar que está a nossa ilha. Também foi um acidente que fez a nossa ilha entrar no mapa.

— A descoberta aqui dessa região está relacionada a um naufrágio que ocorreu aqui, nos idos de 1511. A nau São Pedro navegando por essas áreas, ela abalroou uma dessas pedras e acabou naufragando. Então, daí o nome São Pedro. O nome São Paulo você pode encontrar duas explicações ao São Paulo. Uma das explicações estaria no navio que veio fazer o socorro de São Pedro. Teria sido a nau São Paulo — observa o capitão-de-corveta Marco Antonio Carvalho de Souza, o coordenador do Proarquipélago, programa responsável pela ocupação e pesquisa no território ultramarino.

— Uma outra explicação para o nome São Pedro e São Paulo, em relação a formação geológica. São Pedro e São Paulo está localizada exatamente em cima de uma fratura, uma falha, chamada de Falha de São Paulo — diz a bióloga Danielle Viana.

DISTÂNCIA DA COSTA

 O Arquipélago de São Pedro e São Paulo está a exatos 988,9 quilômetros da nossa costa e é o ponto do Brasil mais perto da África: a aproximadamente 1.820 quilômetros das praias de Guiné-Bissau.

Para ir a São Pedro e São Paulo, só mesmo de barco. Mas, detalhe: este lugar não é aberto ao turismo. O acesso é apenas para pesquisadores e universitários que desenvolvam projetos, sobretudo, de geologia, oceanografia e biologia marinha. O embarque acontece em Natal, no Rio Grande do Norte, em navio da Marinha ou em pequenos barcos pesqueiros, contratados para baratear os custos.

O arquipélago pertence a Pernambuco, mas está sob controle do Programa Arquipélago de São Pedro e São Paulo, que reúne representantes de vários órgãos federais. Foi criado pela Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM), cujo coordenador é o comandante da Marinha.

 — De 15 em 15 dias sai uma expedição do Porto de Natal, transportando os pesquisadores para São Pedro e São Paulo. Uma embarcação chega com um grupo, rende a que está aqui e aquele daqui regressa para o continente. Aquela nova embarcação vai permanecer aqui com aquele novo grupo. Assim a gente mantém o arquipélago habitado continuamente. E esporadicamente nós programamos essas comissões em que aplicamos navios maiores, navios da Marinha, em que trazemos uma série de técnicos. Então, nessas ocasiões, fazemos a manutenção da parte elétrica, das edificações, de estruturas instaladas em São Pedro e São Paulo — diz o coordenador do Proarquipélago

A maior parte das viagens são em barcos pesqueiros.

— Aqui são os beliches em que os engenheiros de pesca dormem. O pessoal que vem, né? — diz o pescador Josué Medeiros da Silva.

— Aqui são os pescadores… Tem mais quatro beliches aqui, né? O pessoal dorme aqui — prossegue ele, mostrando os estreitos espaços para o descanso.

— Aqui é a primeira classe? — pergunto.

— Eu durmo aqui, o mestre, o despachante… — acrescenta Josué.

— É apertadinho aqui, não? — observo.

— É um pouco apertado — concorda o pescador.

— Cabe quantas pessoas aqui no barco?

— Oito, a tripulação... os pescadores aqui são oito. E os viajantes são 12 no total — assinala Josué.

O arquipélago é castigado pelo mar agitado

VIAGEM NO ARAGUARI

Em minha viagem, em setembro de 2016, dei sorte. Embarquei em um moderno navio patrulha da Marinha, o Araguari.São três dias de viagem para percorrer os mil quilômetros entre céu e mar até o destino. A gente só consegue perceber com clareza o arquipélago quando chega bem perto. O desembarque é feito em etapas. Primeiro, você segue em bote inflável até o barco de pescadores e dali pega uma pequena embarcação até a Ilha Belmonte, a maior e a única ocupada.

Você sobe uma pequena escada e, enfim, pisa, digamos assim, em pedra firme. Não há areia. Em frente está a pequena estação e, à direita, o farol, com a antena parabólica. E não há mais nada.

 — Essa ilha aqui tem 120 metros de lado e 90 de profundidade. Então, você vê que é um lugar extremamente pequeno. Agora as outras ilhas são mais inóspitas, mais difíceis de a gente chegar. Passarinho passou e fez uma graça comigo. Fez uma guerrinha — diz o capitão-tenente José Bento.

Mas isso não quer dizer que não haja o que fazer.

 — Essa ilha é singular. Ela é um laboratório natural. Aqui nós encontramos com facilidade acesso para estudo nas mais diversas áreas, não só da Biologia Marinha, mas como da Meteorologia, da climatologia… - diz o professor Jorge. - Pra nós pesquisadores, o arquipélago é um laboratório que está permanentemente fundeado no Oceano Atlântico — diz Danielle.

— Qualquer geólogo daria um dedo para poder estudar isto aqui — diz o biólogo Moyses Cavichioli.

O arquipélago é como se fosse um oásis. Um dos estudos avalia a cadeia alimentar. O guano, as fezes das aves, que dá cor esbranquiçada às pedras, é arrastado pelas ondas e atrai microrganismos, que atraem os pequenos peixes, que atraem os maiores e que acabam atraindo os grandalhões, como o tubarão-baleia, de até 14 metros de comprimento. No vídeo, você pode ver o biólogo Bruno Macena nadando com um exemplar. O animal, felizmente, não é agressivo.

Há outras espécies não tão amistosas.

 — Nesta região aqui tem muito tubarão? Você já viu muito tubarão, não? — pergunto ao pescador
Alderi Siqueira, que faz a ligação, em pequeno bote, entre a ilha e o barco de pesca.

 — Tem muito. Tem vezes que a gente não consegue nem contar ao redor do barco — responde ele, que há dez anos pesca nos rochedos.

 — Você sabe qual é a espécie?

 — Lombo preto e martelo — responde Alderi.

 — Martelo ataca… — atesto.

 — Ele é meio agressivo, mas até agora aqui nunca teve ataque — pondera.

UM LUGAR QUE TREME
Superfície é formada pelo manto terrestre que aflorou

 No arquipélago, há mais com o que se preocupar. Terremotos…

 — Já tive oportunidade de sentir terremoto tanto embaixo d’água como aqui na ilha, né? A penúltima vez que estivemos aqui fazíamos imagens subaquáticas e a gente sentiu. Foi quase cinco pontos na escala – diz a bióloga Danielle Viana.

 — Os tremores aqui raramente atingem uma pontuação mais alta na escala Richter. São bem amenos. Mas, sim, tem registro, assim, de tremores consideráveis — atesta o biólogo Moyses Cavichioli.

 — Já foram localizados um total de 362 eventos sísmicos com magnitude variando de 1 a 6.2, este maior, ocorrido no início desse ano — completa o geofísico Guilherme de Melo, do Laboratório de Sismologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

 Em mergulho na enseada, percebemos o acentuado declive rumo as profundezas do Atlântico. Os rochedos são o topo de uma cadeia de montanhas submersas.

 — A região aqui está sujeita a terremotos frequentes. São Pedro e São Paulo aflorou exatamente sobre a Falha de São Paulo, uma falha que percorre todo o Oceano Atlântico. São Pedro e São Paulo se ergue de uma profundidade abissal, cerca de quatro mil metros de profundidade, exatamente sobre esta falha, a partir desta falha. Então, é uma região que treme com muita frequência — diz o capitão de corveta Marco Antonio Carvalho.

 — Se a gente entende bem aquela região do ponto de vista do que está ocorrendo em termos de terremoto, a gente tem muito mais informação sobre os detalhes de como está sendo a abertura entre as duas placas tectônicas, entre a placa sul-americana, que o Brasil está dentro dela, e a placa africana — explica o sismólogo Aderson Nascimento.

 Não é à toa que estes rochedos chamaram a atenção de Charles Darwin, durante viagem no HMS Beagle. Em 16 de fevereiro de 1832, o naturalista inglês desembarcou na ilha Belmonte e constatou que a formação era diferente da de ilhas vulcânicas. Mais tarde, se descobriria que ao tocar no solo desta ilha estamos tocando nas profundezas da Terra.

 — Esta ilha tem uma característica muito interessante que é a única ilha oceânica composta pelo manto. A maioria das outras ilhas e cordilheiras é a partir do núcleo ou da crosta terrestre — diz Moyses.

 — Quando você caracteriza a Terra em diversas camadas, tem uma camada um pouco mais superficial que é a crosta. Em regiões oceânicas, a crosta tem pouco mais de 10 até 15, no máximo 17 quilômetros. A partir disso, tem uma transição, um outro tipo de rocha, que são rochas mantélicas. São nestas rochas, basicamente, que as placas tectônicas repousam — assinala o sismólogo Aderson Nascimento.

 — Então, ela tem esta característica única que é o sonho de qualquer geólogo que é estar aqui e ter amostra desta rocha, o peridotito serpentinizado — acrescenta Moyses.


Em dias de ressaca, a estação sofre com as ondas

ABERTURA ENTRE CONTINENTES

 Se este lugar é tão estranho, tão adverso, por que mantê-lo ocupado?

 — Há cerca de 160 milhões de anos, o processo de abertura entre os dois continentes se iniciou. Entre esses dois continentes você forma lugares com potencial petrolífero e de mineração também muito alto — diz Aderson.

 Para ter direito a esta riqueza, o Brasil precisou agir rápido.

 — São Pedro e São Paulo veio, efetivamente, a despertar o interesse, quando da promulgação da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos do Mar. Esta convenção é que estabelece que as ilhas que não se prestam a habitabilidade não tem direito a esta zona econômica exclusiva — observa Marco Antonio Carvalho.

 Em 25 de junho de 1998, inaugurou-se a primeira estação científica no arquipélago.

 — Garantir esta ocupação contínua permite ao País legitimar uma área de zona econômica exclusiva de aproximadamente 450 mil quilômetros quadrados. Assim, ampliamos a nossa Amazônia Azul, já tão grande, que esconde um patrimônio gigantesco — ressalta Carvalho.

 Mas a primeira estação no arquipélago duraria pouco...

No ano seguinte à inauguração, grandes ondas destruíram parcialmente a sede. Em 2006, barreiras de proteção foram instaladas. O mar surpreendeu novamente e causou graves danos à estação. Uma nova sede foi construída em área mais protegida e com sapatas elevadas, resistentes a terremotos. Mas, o mar em fúria voltou a assustar em 29 de maio de 2014. Os quatro pesquisadores, que passavam temporada de 15 dias, correram para o farol, a parte mais alta na Ilha Belmonte, e se refugiam em um abrigo de emergência.

— Lá em cima a gente tem um abrigo, um shelter, onde nos casos mais extremos aqui no arquipélago, quando acontece situações inesperadas, o pessoal que está aqui vai para lá. Lá nós temos água, ração para sobrevivência durante cinco dias. E aqui a gente sabe que está tudo bem agora, de repente o mar fica agitado, o pessoal tem de se recolher a um lugar seguro. Então, lá está o nosso shelter — diz José Bento, o encarregado da manutenção.


A futura estação ficará amais de três metros do solo

Um terceiro projeto promete deixar, enfim, os pesquisadores mais seguros.

 — Uma vez que essa nova estação a pretensão é instalá-la a uma altura de cerca de três metros em relação ao solo. Assim, vamos trazer mais segurança no que se refere ao impacto das ondas. O incômodo com as ondas vai praticamente deixar de existir para o pesquisador. Mas em função principalmente dos tremores frequentes nesta região há necessidade de se chegar a um dimensionamento de estrutura que seja compatível com essa realidade — diz Carvalho.

 Apesar da ameaça permanente do mar, um antigo estudo estimou o crescimento do arquipélago. Uma nova coleta de dados, iniciada em 2015, oferecerá um dado mais preciso.

— O que a gente também tem, além da estação sismográfica lá, e isto é uma novidade, é uma estação total de GPS, que está funcionando lá há cerca de um ano. Esta estação total é que vai dar a taxa atual de crescimento, de soerguimento da ilha. O que a gente tem é de 1,5 a 2 milímetros por ano, mas isso é uma taxa média de datação de corais, na ilha — observa Aderson.

 A natureza nos surpreende em São Pedro e São Paulo.

A TRAIÇÃO DOS ATOBÁS
A ave divide a ilha entre os solteiros e os casados

 Se você acha que a vida é dura para os pesquisadores, é porque desconhece o perrengue dos atobás. A vida é sobre as fezes.

 — Eles fazem muito coco e o branquinho é exatamente o guano  — observa a bióloga Danielle Viana.

 Tem de tudo. Invasão de domicílio, adultério, bigamia, infanticídio, briga entre vizinhos, abandono de incapaz…

 — Eles são meio desengonçados. Eles não conseguem pousar exatamente no local certo, no local do ninho deles. Quando isso acontece, como aconteceu agora há pouco, eles acabam brigando. Eles são extremamente territorialistas e são agressivos — diz a bióloga.

 A principal ilha, a Belmonte, é dividida entre os casais, que ocupam a parte mais nobre, entre a estação e o farol. Os solteiros ficam na região mais plana e baixa, sujeita às ondas. Não é difícil identificar machos e fêmeas.

 — Olha a cor do bico dela é mais puxado para o rosa. E esse outro que está ali tem o bico mais puxado para o amarelo esverdeado. É o macho. A cor do bico é a cor da patinha — diferencia Danielle.

Um casal de aves se tocam com o bico.

 — Troca de carinho, mas o macho quando ele quer copular, sobe em cima das costas das fêmeas — explica Danielle.

Um outro atobá parece tremer.

 — Esse comportamento de ficar airando, tremendo a garganta, é para tentar amenizar o calor — esclarece.

 — Até um determinado tamanho ele não consegue se alimentar sozinho. Então, o macho e a fêmea capturam o peixe e regurgitam na boca do filhote.

 Mas, aí começam os problemas.

 — Às vezes, acontece de eles chocarem dois ovos ao mesmo tempo. Quando acontece de eclodirem os dois ovos, geralmente o filhote mais forte, ele acaba expulsando o mais fraco do ninho. Exatamente porque os pais não têm condições de alimentar os dois. Só o mais forte sobrevive — diz Danielle.

 — Chega um momento, entre dois meses e meio e três meses, que os pais decidem expulsar o filhote do ninho. E aí é surra. Dão surra até o bicho sair. A intenção é exatamente essa. Desocupar o ninho para que eles possam gerar uma nova prole — diz.

 Na parte menos nobre da ilha, todo machucado, o jovem atobá buscará companhia. A missão é mais fácil para o macho. O número de fêmeas é 12 por cento maior.

 — Saiu do ninho, ele tem de procurar uma fêmea. Procurar um espaço para ter o próprio ninho, e gerar filhote, continuar a prole — conta a bióloga.

 Em uma ilha sem vegetação, quase não há material para confeccionar o ninho. Com disponibilidade maior de fêmeas, os machos pulam a cerca.

 — Muitas vezes, o macho toma conta de dois ninhos. Como falta material, ele fica levando de um ninho para o outro — diz Danielle.

 A ilha é pequena, mas guarda muitas histórias...

PERTO DA MORTE
O italiano Alex Bellini: sorte

A morte está próxima para o italiano Alex Bellini. Ele está perdido em um barco a remo no meio do Atlântico. Aos 28 anos, parece ser o fim da aventura de atravessar sozinho o Atlântico, depois de partir de Gênova, na Itália, rumo a Fortaleza, no Ceará. Em uma travessia cheia de contratempos, teve o barco virado por duas grandes ondas. Parte dos alimentos se perdeu, outra se estragou. Após quase seis meses, ele se vê sem nada para comer havia cinco dias.

 Mas há um fio de esperança. Por rádio, recebe orientações de amigos na Itália sobre um arquipélago brasileiro naquela região. Mas o território nem sequer constava em suas cartas náuticas. E pior: a ondulação do mar escondia o baixo relevo das ilhotas. O italiano não vai achar nada.

Só um milagre o salvará. A sorte está com Bellini. No barco que dá apoio às pesquisas no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, um pescador percebe algo alaranjado flutuando no horizonte, no imenso mar azul. É o barco à deriva com o italiano exausto e faminto.

 A comitiva que estava comigo precisou se apertar para caber na estação na única noite que passamos lá. Fiquei com a beliche de cima em frente à janela. Graças a isso pude fazer uma imagem, ainda na cama, no amanhecer de 24 de setembro de 2016.

O sol aparece e se torna abrasador nos primeiros momentos do dia na única ilha oceânica brasileira acima da linha do Equador. Às 6h, fui para o farol fazer imagens gerais. Depois de gravar algumas entrevistas, soube do caso do italiano perdido.

 — A ilha tem muitas histórias. Mas a minha favorita é a de um aventureiro italiano que queria atravessar o Atlântico em um caiaque – diz a bióloga Danielle Viana.

Bellini foi resgatado por pescadores baseados na ilha

Ao voltar para o continente, consegui localizar o aventureiro Alex Bellini, morando em Londres, dez anos após o resgate. Por videoconferência, Bellini contou sobre a fantástica experiência em 2006.

 — Cheguei a um pequeno arquipélago, muito feio, cheio de rochedos, cobertos de guano das aves marinhas. Não havia lugar para sentar. Mas, mesmo assim, representava a minha sobrevivência  — recorda o navegador Bellini, hoje com 40 anos.

 — Eu parecia mais morto do que vivo. Muito magro, cansado. Fui recebido como um náufrago pelo fato de ter ficado cinco dias sem comer. A primeira coisa que perguntei foi por água e comida, mas negaram.

Por fim, perguntei a Bellini sobre uma estranha coincidência em seu resgate que envolve o nome dos santos. Então, ele me explicou que assim que chegou a ilha Belmonte conseguiu ligar para um amigo e informar a todos que estava salvo.

 — Quando contatei meu amigo por telefone e disse que estava no Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Ele ficou congelado. Ele me disse: “Alex, você não vai acreditar. Mas, minha mãe”, a mãe de meu amigo, “tinha sonhado que você estava pendurado ao campanário de nossa paróquia de Aprica.” A igreja de Aprica é em homenagem a São Pedro e São Paulo. O santo padroeiro da cidade é São Pedro e São Paulo. E a mãe do meu amigo havia sonhado comigo agarrado ao campanário de São Pedro e São Paulo. É bastante misterioso, uma bela coincidência: era efetivamente o que eu estava fazendo: agarrado à esperança de sobreviver com a proteção de São Pedro e São Paulo.


Bellini com pesquisadores no barco que dava apoio à estação

Notas:

1 - Depois de se recuperar, Alex Bellini partiu do arquipélago e chegou a Fortaleza, totalizando 226 dias de navegação na travessia do Atlântico. Em 2008, Bellini fez a travessia do Pacífico.

2 - Análise preliminar do Laboratório de Sismologia da UFRN, em maio de 2019, indica que a taxa de soerguimento é negativa, mas menor que 1 mm por ano. Estima-se que em até 50 mil anos, devido à erosão e por estar sobre a Falha de São Paulo, o arquipélago poderá estar completamente submerso.